Às vezes eu sinto que segui um caminho que é bifurcação do caminho espaçoso que os outros ao meu redor seguiram, encontrei com eles após décadas de andanças entre as pedras de algum lugar que eu esqueci o nome. Paramos no mesmo ponto, mas tenho medo de dizer que pra mim foi tudo diferente, eu temo as conclusões equivocadas, minha falta de boa vontade e paciência de explicar o contrário. Então, estou aqui, escondida atrás de uma poltrona que fala e apresenta-se com o nome de preguiça e serve de assento, todos os dias, a um gordo que parece muito mais um lutador de sumô. Eu não vou com a cara dele. A poltrona preta falante que se diz ser a preguiça me revelou que ele se alimenta de tudo que eu tenho medo, e que ele me conhece.
Todos os dias eu me levanto olhando para os lados, receosa que tenham visto meu esconderijo. Visto minha roupa e cumpro todo o ritual humano antes de ir para faculdade e agir como se estivesse tudo normal. Olho para eles e até converso, às vezes solto uma piadinha, às vezes fico feito bicho acuado e detenho-me a responder alguma pergunta.
Quando chego em casa e fecho a porta do apartamento, já quase esquecida de que ele me seguia em passos lentos, quase como um bote, ao levantar os olhos para a sala, o lutador de sumô me pergunta quase sorrindo:
- Por que demorou?
-Sem resposta...
Mas outro dia, sonhei que isso foi só um pesadelo, que eu entendo o que está acontecendo, que isso é resultado dessa minha introspecção viajante, dessa imaginação que me dá asas, embora nem sempre me leve para os melhores lugares ( Juro que ando procurando uma agência nova).
Hoje escondi tudo rapidinho, duas colegas vieram estudar aqui, estávamos tentando nos livrar da caveira com pêlos saindo pelas narinas que assusta os estudantes de anatomia II, acabei relaxando nos intervalos e fui tratada quase como um extraterrestre.
-Arrhan! Traga umas batatas com chocolate, disse o lutador de sumô se aconchegando naquela poltrona preta que eu escondi dentro do armário.
-Acho que eu preciso fazer uma faxina, jogar umas coisas fora, pensei...
Tenho a sensação que algo vai explodir em breve, escondo materiais inflamáveis na cozinha e tento encontrar o pavio. Mas... Enquanto estou aqui, viva e cheia de interrogações, mesmo com um gordo folgado me seguindo, um velho sacana chamado tempo com sua sabedoria quase irritante, uma magrela mesquinha e fria que insiste em brincar de esconde-esconde e atende por solidão na minha cola, mesmo assim, e enquanto isso, vou vivendo, arriscando todos os dias, tentando ser o mais normal possível.
Mas guardem segredo...