sexta-feira, 5 de abril de 2013

Do lado de cá ~

Tinha a impressão que seu mundo era meio inabitado e ela sentia-se, aqui, estrangeira, com orelhas grandes e cara verde. Disseram a ela que era preciso ver a realidade, porque parecia que em seu coração havia uma espécie de amplificador de sentimentos, e o que era ruim, se tornava pior para ela. Mas ela tinha medo, de fato, já sabia da existência desse amplificador em seu íntimo, ele causava dias insuportáveis, provocados por um impacto que deveria ser razoável. E nesses dias ela queria mesmo se livrar do amplificador, mas as tentativas foram ainda mais dolorosas.

E pegou-se a pensar um certo dia:

- "E quando o meu coração estiver cheio de amor, em uma daquelas manhãs de primavera, que o sol chega com ar de majestade e os galhos que balançam com o tocar do vento parecem anunciadores de uma felicidade simples e pura?  Quando o coração palpita de fé e eu pareço a única a amplificar os gestos singelos da natureza... E quando o impacto da dor está sufocado e eu posso desfrutar dessa sensibilidade inigualável... E quando... ?"

 Então, mergulhada em sua introspecção, a estrangeira de cara verde abraçou seu próprio peito e decidiu se responsabilizar pelas sequelas do seu amplificador, convenceu-se que poderia construir uma armadura, feita de versos e flores que emanam de sua fé, da inocência riscada daquela que consegue ver o sol, alguns dias, como um Rei a acenar. Ela resolveu encaixar esses sentimentos nos poros de uma armadura feita por ela, para proteger-se e preservar sua sensibilidade de reconhecer que a felicidade é simples como um galho que balança com a música do vento.   A.C.D



"A violeta é introvertida e sua introspecção é profunda .Dizem que se esconde por modéstia.
Não é.
Esconde-se para poder captar o próprio segredo.
Seu quase-não-perfume é glória abafada mas exige da gente que o busque.
Não grita nunca seu perfume.Violeta diz levezas que não se podem dizer." Clarice Lispector.